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Independência financeira e reforma antecipada: o guia para o trabalho ser facultativo

A principal meta financeira dos portugueses deveria ser acumular o suficiente para poder deixar de trabalhar. Depois, só deixa a lida profissional quem quer.

Por David Almas a 23 de dezembro de 2020

Não é por acaso que a palavra “trabalho” deriva do latim “tripalium”, que significa “tripálio”, um instrumento de tortura usado para forçar os escravos a produzir.

O trabalho pode ser ainda uma forma de escravatura. Para sobreviver, a maioria das pessoas não tem a liberdade para decidir que não quer trabalhar.

Há muita gente feliz a trabalhar — eu incluído —, mas muitos não têm a opção de não o fazer ou de perseguir outra profissão ou ocupação que lhes traga ainda mais felicidade.

Só há uma maneira de se libertarem dessa corrente: atingindo a independência financeira.

A independência financeira é alcançada quando se pode deixar de trabalhar, vivendo-se exclusivamente das poupanças acumuladas: ativos financeiros ou reais, como imobiliário. Algumas pessoas já nascem financeiramente independentes; outros têm de trabalhar muito para lá chegar.

Não confunda independência financeira com reforma antecipada, embora a moda mais recente as posicione na mesma página. Há quem fale do movimento FIRE — do inglês financial independence, retire early —, mas eu prefiro escrever sobre IFRA — independência financeira e reforma antecipada.

Quando se chega à independência financeira, trabalhar passa a ser opcional. Quando se deixa de trabalhar efetivamente — em simultâneo com o registo da independência financeira ou após essa marca ter sido atingida —, opta-se pela reforma antecipada, caso ainda não se tenha chegado à idade estatutária para receber uma pensão.

Este artigo não deseja aconselhar sobre a reforma antecipada — essa decisão é demasiado pessoal —, mas quer ajudar os leitores a chegar à independência financeira.

Quanto é necessário para viver dos rendimentos?

“Um milhão de euros” é a resposta mais frequente que oiço quando pergunto a alguém qual seria o montante a partir do qual se sentiriam financeiramente independentes. Como veremos, para a maioria, é um montante exagerado.

Quando, a seguir, pergunto o que fariam com esse milhão, dizem quase sempre que viveriam dos rendimentos. Será possível?

Se tiver um pé-de-meia de euros, conseguirá retirar rendimentos mensais de 4074 euros, assumindo uma rentabilidade anual de 5%. Não será muito? Talvez se consiga viver com menos.

Talvez seja mais intuitivo descobrir quanto dinheiro teria de acumular para conseguir garantir um determinado montante mensal.

Se precisa de euros por mês, então tem de acumular cerca de 294600 euros, assumindo uma rentabilidade anual de 5%. (Os resultados interativos são arredondados e aproximados. Pode usar decimais, se quiser. O separador decimal depende do seu programa de navegação, mas provavelmente é o ponto.)

Mesmo assim, o número que encontrou no parágrafo anterior pode ser exagerado. Até agora, as simulações assumem que nunca toca no capital durante a independência financeira; vive apenas dos rendimentos. Além disso, usa uma rentabilidade anual de 5%. Será correto?

A importância da rentabilidade

A taxa de retorno que consegue nos seus investimentos é crucial. Em algumas circunstâncias, é tão ou mais importante do que a própria poupança.

Como vimos atrás, consegue um retorno mensal de euros se puser 294600 euros a render à taxa anual de 5%, mas precisaria de 582600 euros com uma rentabilidade anual de 2,5%. E à sua taxa? Com uma rentabilidade anual de %, consegue um rendimento mensal de 1500 euros se tiver um pé-de-meia de 418000 euros.

Portanto, se cortar a sua rentabilidade anual para metade, precisará de quase o dobro da poupança para manter o rendimento mensal.

Qual será a rentabilidade que deve esperar das suas aplicações? Elroy Dimson, Paul Marsh and Mike Staunton, investigadores da London Business School, compilaram os desempenhos dos principais ativos financeiros de 23 países aos longo de 119 anos. O Global Investment Returns Yearbook de 2019, que publicaram através da unidade de análise financeira do Credit Suisse, indica que as ações renderam 9,4% por ano, as obrigações ganharam 4,9% e os bilhetes do Tesouro 2,9%.

Todavia, não são esses retornos que interessam. Para aferir a evolução do poder de compra do património, o que deve ser analisado é a rentabilidade real, isto é, o ganho acima da inflação. Em termos reais, as ações renderam 6,4% por ano, as obrigações 1,9% e os bilhetes do Tesouro 0,8%.

Num estudo separado, Christophe Spaenjers, da HEC Paris, comparou o desempenho das ações britânicas com ativos reais no Reino Unido entre 1900 e 2014. As ações mantiveram-se à frente de outros bens, como vinho, imóveis, terrenos agrícolas, ouro, prata e diamantes.

Em edições passadas do Global Investment Returns Yearbook, Dimson e Marsh avisaram que usar os retornos históricos nos planos financeiros é muito otimista, porque não têm em consideração os impostos e as comissões da carteira de investimentos.

Nas minhas projeções pessoais, assumo uma rentabilidade real efetiva entre 3,5% e 5% por ano na componente acionista no longo prazo. Para mim, que já sou financeiramente independente e não reforço frequentemente a carteira acionista, o longo prazo são 20 anos. Para outros, em particular os que estão na fase de acumulação periódica, o longo prazo pode ser mais curto, de 10 anos, por exemplo.

Para me proteger, procuro ser pessimista e uso frequentemente 3,5% nos meus cálculos de longo prazo. Sei que não tenho qualquer garantia de obter este retorno, porque o futuro é incerto, mas é a melhor estimativa conservadora que consigo fazer com a informação que tenho hoje.

Se aplicasse o meu dinheiro num fundo de ações caro — uma taxa de encargos correntes de 2%, que é frequente entre os fundos de ações da banca portuguesa, é muito elevada —, a rentabilidade real efetiva que esperaria seria menor. (A taxa de encargos correntes é uma medida dos custos do fundo: é a proporção do património investido que é usado anualmente para pagar a comissão de gestão fixa, a comissão de depósito, a taxa de supervisão, os custos de auditoria e outros custos corrente.)

Como indiquei na primeira edição do boletim tlim, o fundo que escolhi para as minhas finanças pessoais tem uma taxa de encargos correntes de 0,2%.

Infelizmente, isso quer dizer que a expectativa que tenho para as restantes aplicações — seguros de capitalização, planos de poupança-reforma, fundos de pensões, Certificados de Aforro, Certificados do Tesouro, Certificados de Reforma, depósitos a prazo, contas de poupança, fundos de obrigações, fundos mistos, obrigações, empréstimos colaborativos, entre outros — é de rentabilidades reais muito reduzidas ou, mesmo, negativas. Pouco ajudam a aumentar o poder de compra do património no longo prazo e, até, o podem destruir.

Veja noutro prisma: ao optar por um instrumento menos rentável, terá de trabalhar mais anos para acumular uma poupança que renda mensalmente o mesmo.

É verdade que as ações são mais voláteis do que a maioria dos produtos de aforro no curto prazo, mas esse é o preço que se tem de suportar no curto prazo para receber um potencial de retorno mais elevado no longo prazo.

Não é o objetivo deste artigo convencer os leitores a exporem-se ao mercado acionista. Isso fica reservado para futuras edições do boletim tlim. Mais importante do que isso é que esteja confortável com as suas escolhas.

Não viva só dos rendimentos

Até agora assumimos que nunca mobilizaria o seu pé-de-meia. É uma estratégia possível: viver apenas dos rendimentos e deixar o património para os herdeiros. Contudo, chega-se mais depressa à independência financeira se planear gastar progressivamente o que acumulou durante a vida.

O planeamento da independência financeira com recurso ao património e aos rendimentos desse património é mais traiçoeiro e desagradável: é preciso ter uma ideia de quando morreremos. Só assim é possível traçar uma previsão da longevidade do património.

Normalmente, recomendo a quem desenha o seu plano de independência financeira a prever despesas até aos 94 anos. A probabilidade de uma pessoa celebrar o 94.º aniversário é inferior a 10%, desde que não seja agora septuagenário, octogenário ou nonagenário, segundo as tábuas de mortalidade publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística. Naturalmente, pode ajustar a esperança de vida consoante o seu estado de saúde e os seus hábitos.

E se for um dos que viverá além dos 94 anos? Não há problema: pode sempre ir ajustado o seu plano financeiro à medida que o tempo passa e que as suas previsões se aproximam de certezas, aumentando a poupança mensal, adiando a independência financeira ou reduzindo a despesa mensal na “aposentação”, por exemplo.

Assim, se planeia gastar euros por mês, a preços de hoje, durante a sua independência financeira, entre os anos e os anos, então precisa de acumular cerca de 308800 euros, assumindo uma rentabilidade real efetiva (acima da inflação e líquida de encargos) de % por ano. Se começar agora, aos anos, do zero, precisa de amealhar mensalmente 2200 euros para chegar a esse montante, assumindo a mesma rentabilidade anual.

No entanto, se calhar já tem uma poupança reservada para a independência financeira. E, talvez, tenha direito a uma pensão de velhice.

Quanto esperar de pensão?

Para a maioria das pessoas, a pensão de velhice atribuída na idade de aposentação prevista na lei é uma “média” dos salários (ajustados pela inflação) ao longo da carreira.

E a sua pensão? Dependerá do que fizer depois de atingir a independência financeira. Se se decidir pela reforma antecipada — ficando alguns anos sem descontar até solicitar a pensão estatutária —, então a sua futura pensão de velhice será penalizada no cálculo da “média”.

O simulador de pensões da Segurança Social Direta é uma boa fonte de informação: projeta a sua pensão se continuar a sua carreira profissional até à idade estatutária de aposentação. (O número que interessa é o “valor correspondente nos dias de hoje”.) Quanto mais próximo da idade estatutária decidir a sua reforma antecipada, mais próxima será a pensão do valor estimado pelo simulador da Segurança Social.

Até onde pode baixar a pensão? Não pode reduzir-se além da chamada “pensão mínima”, que, em 2019, é de 273,39 euros. Por isso, conte com uma pensão entre 273,39 euros, a preços de hoje, e o “valor correspondente nos dias de hoje” fornecido pelo simulador da Segurança Social. Será mais próxima do mínimo quanto mais cedo se decidir pela reforma antecipada.

O truque não é só poupar; é não gastar

Com uma estimativa de pensão consegue traçar um plano de independência financeira mais completo:

O que quer dizer “a preços de hoje”? Significa que os montantes devem ser atualizados anualmente ao mesmo ritmo do aumento dos preços, isto é, à taxa de inflação.

Normalmente, quando as pessoas poupam uma parte dos seus rendimentos pensam apenas em como esse dinheiro capitalizará para o futuro. Mas há outro benefício: ao poupar, estão também a baixar o seu consumo, habituando-se a viver com menos dinheiro. Esse hábito conduzirá a menos necessidades financeiras no resto da vida. Logo, o pé-de-meia essencial para a independência financeira será menor.

Experimente reduzir a despesa mensal durante a independência financeira na simulação anterior: muita vezes, basta reduzir em 10% para baixar o esforço mensal de poupança em um terço.

Afine os campos da simulação até encontrar um plano que lhe seja confortável. Porém, não se esqueça: é apenas um plano. Muitas das previsões provavelmente revelar-se-ão erradas, especialmente o desempenho das aplicações financeiras, que, se não forem instrumentos com rendimento garantido, será volátil. Será preciso corrigir a trajetória do seu projeto várias vezes ao longo da vida. ★